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Sitges 2003
Miike Takashi

Miike Conferência Imprensa

O realizador japonês Miike Takashi começou a ganhar culto no ocidente depois da passagem de «Fudoh: The New Generation» por diversos festivais de cinema, incluindo o Fantasporto onde, em 1998, ganhou o prémio da secção Fantásia. «Audition», «Dead or Alive» e «Visitor Q» são outros títulos que contribuíram para a difusão desse culto. Nunca deixamos de ter a sensação, mesmo depois de ver três ou quatro filmes de Miike de seguida, de que conhecemos apenas a ponta do iceberg e que poucos se poderão arrogar de ter um conhecimento profundo da sua obra. Afinal, para Miike, a realização de cinco ou seis filmes num mesmo ano é regra e não excepção.

Cedo nos apercebemos do nível de apreciação – ou, diríamos mesmo, de adoração – que envolve Miike em Espanha ou, pelo menos, no circuito do cinema fantástico. E tal abrange tanto o público – como se pôde constatar pelas salas cheias, nas projecções dos seus filmes, e pelo modo como eram aplaudidos – como a imprensa – algo reflectido por uma forte presença dos media na conferência de imprensa que dá azo a este texto e nos aplausos com que foi saudado o anúncio dos prémios atribuídos a «Gozu».

Miike
Se o dia anterior foi, oficialmente, o Dia da Coreia, no Festival de Sitges, quarta-feira, 3, foi, a nosso ver, o Dia Miike. Além da conferência de imprensa, a propósito de «Gozu», a concorrer na Secção Oficial Fantàstic (vencedor dos Melhores Efeitos Visuais e do Prémio Especial do Júri), projectaram-se, neste dia, «Graveyard of Honour» (em duas sessões, de manhã e ao final da tarde), «Shangri-la» e o referido «Gozu». Antes da projecção deste último filme, o realizador recebeu o prémio-homenagem Máquina do Tempo (destinado a “figuras do mundo cinematográfico que, de um modo ou de outro, contribuíram historicamente para a evolução da linguagem do cinema.”)


A conferência de imprensa foi introduzida por Ángel Sala, que apresentou sumariamente o cineasta, referindo a passagem de «Audition» por Cannes, o sucesso de culto mais recente de «Ichi the Killer», exibido na anterior edição do festival, e descrevendo uma obra constituída por muitos filmes, muito diversos entre si, com uma vertente a caracterizá-lo como um sucessor da grande tradição do cinema de yakuza. O director do festival destacou, naturalmente, a apresentação de «Gozu» e a antestreia europeia do filme de horror «One Missed Call».

A primeira questão colocada a Miike prendeu-se com o incontornável tema da violência e os seus efeitos, cómicos ou dramáticos. “Não gosto particularmente de violência”, disse o realizador, para divertimento de boa parte da audiência. Frisou que, apesar de ser conhecido sobretudo pelos seus filmes mais violentos, se dedica aos mais diversificados géneros cinematográficos, vindo a afirmar, um pouco mais à frente, ter “muito medo” de filmes de terror – e provocando mais algumas reacções de surpresa (ou de divertimento). Outra questão suscitaria mais comentários sobre as arrumações temáticas dos filmes, com Miike, uma vez mais, a frisar que faz filmes de todos os géneros, incluindo dramas para televisão. “Faço o que me oferecem e o que me parece divertido. É uma questão de ser o meu estilo e não de pertencer a um particular género”, acrescentou. “Também tenho feito dramas humanistas, mas aqui [na Europa] disseram-me que não era o meu estilo”.

Como seleccionar guiões, então? Para o realizador japonês o mais importante não é – novamente – o género ou o facto de estar bem escrito, mas sim conseguir sentir o que o guionista quer expressar: “Se me convencer que posso exprimir algo que me interesse, uso-o; prefiro um texto que me toque o coração, do que um guião muito bem escrito profissionalmente.” Miike tentou diluir a concepção de “autor” que lhe poderiam querer colar, destacando a importância da comunicação entre a equipa técnica, os actores e o realizador, como a componente essencial para que um filme funcione.

Miike
A sua velocidade de trabalho também não poderia deixar de ser referida e, quanto à questão de conseguir realizar tantos filmes, sem deixar de lhes conferir determinadas particularidades e de desenvolver pormenores, afirmou não estar constantemente a planear as coisas a que se vai dedicar. “As coisas saem espontaneamente durante a rodagem”. No que toca aos seus métodos de trabalho, descreveu-se mais como um adaptador do que um criador: “Gosto muito que me proponham uma ideia, para que a possa usar, moldando-a, para criar algo de novo”.

Quando questionado sobre o que pensa da reacção do público e da recepção em festivais de cinema, como Sitges, Miike afirmou-se grato por ter sido “descoberto” neste eventos e satisfeito com a sua relação com os festivais, mas reiterou que “o meu objectivo é apenas fazer cinema”. “Faço sobretudo OVs [original video], que não são destinados primeiramente a salas de cinema ou festivais, mas que, ultimamente, são aí projectados. Cannes é, para mim, outra dimensão, muito sofisticado; sentia-me um pouco incomodado por ser muito exclusivo e de precisar de usar smoking, que não é o meu estilo.” Sobre a referência máxima dos festivais de cinema acrescentou, provocando o riso na sala, que “o director do festival que me convidou foi entretanto substituído e não sei se não haverá uma relação...

Autógrafos
No final da conferência de imprensa, Miike distribuiu alguns autógrafos.

«Gozu» era o mote para a conversa com a imprensa e uma das questões levantadas foi a duração da rodagem. Três semanas foi a resposta (que divertiu os presentes), com Miike a ter de especificar: “O orçamento era para uma rodagem de duas semanas, mas queria fazer um filme um pouco mais bem feito, de modo que, por acordo com todos os intervenientes, prolongamos a rodagem por mais uma semana, mas com o mesmo dinheiro.” Ainda em relação à sua velocidade de trabalho, o realizador disse, concluindo, que o seu estilo não é o de fazer as coisas com calma, como outros cineastas. Trabalhar rapidamente, em muitos projectos, permite-lhe conhecer muita gente nova, actores, produtores, etc. “Fazer mais, para mim é crescer mais; crescer mais a fazer mais filmes. Cada vez faço mais filmes e tenho mais ideias. Tenho liberdade total para expressar as minhas capacidades, estou muito satisfeito com aquilo que faço e com este mundo e quero seguir este estilo de trabalho”.


21/12/2003



Sitges 2003
Dia da Coreia - Conferência de imprensa
Conferência de imprensa com Asano Tadanobu («Zatoichi»)
Fórum: "O Cinema Japonês Contemporâneo", com Miike Takashi e Lida Joji
Fórum: "Coreia, Cinema Explosivo"

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