Uzumaki
Spiral, Vortex
うずまき
Realizado por Higuchinsky
Japão, 2000 Cor – 90 min.
Com: Hatsune Eriko, Fan Fhi, Saeki Hinako, Shin Eun-Kyung, Takahashi Keiko, Osugi Ren, Denden, Horiuchi Masami, Suwa Taro, Teduka Tooru
horror surreal
DVD Japonês
Os cidadãos de uma pequena cidade de província, separada do continente por um túnel, são subitamente afligidos por uma terrível maldição – paira nas mentes dos habitantes uma estranha obsessão por todo o tipo de objectos ou figuras que lembrem - vagamente ou literalmente - uma espiral. No meio do turbilhão, estão dois adoslescentes (Eriko Hatsune, Fhi Fan), amigos de infância, que procuram sobreviver perante o colapso e a disfunção familiar.

«Uzumaki» é uma peça bem urdida de cinema fantástico. Surrealista qb, hipnótico e com claras influências do «comic book» no qual se inspirou (da autoria de Junji Ito), a primeira longa-metragem do realizador Higuchinsky é um pesadelo cinemático de imagens poderosas, belas e inovadoras. Visualmente, é uma obra deliciosa e encantatória, que nos faz amíude olvidar alguma magreza do argumento e diálogos. A estética empregue por Higuchinsky remete-nos para um universo de matriz claramente surrealista, cuja primeira e mais óbvia recordação provém do cinema de autores ilustres, como David Lynch (de «Eraserhead»), Jeunet e Caro) (de «A Cidade das Crianças Perdidas», ou mesmo Tim Burton (de «Beetlejuice»). Sendo este tipo de exercício comparativo algo perigoso e redutor, especialmente nos dias que correm, pode-se dizer que o filme pode lembrar esses autores, mas nem tão pouco se resume somente a isso. Em termos conceptuais, há aqui mátéria para isso, pois as temáticas abordadas vão desde a repulsa e ambiguidade sexual ao horror físico, visceral e contorcionista.

Hatsune Hatsune Fan
Numa cidade estranha, o que uma menina solitária precisa é de um amigo estranho.

Higuchinsky iniciou-se na filmagem de videoclips e essa componente experimental é por demais evidente neste seu primeiro filme, apostando numa componente estética bem marcada, assente numa fotografia de cores vivas e berrantes, aludindo ao pesadelo e viagem infernal que percorre cada fotograma, associando-se a efeitos de câmara arrojados. Esteticamente, é puro onirismo; narrativamente, a matéria é tratada como um conto de encantar – há uma voz «off» a embalar o espectador, em surdina, de uma magnética Eriko Hatsune.

Por aqui, há também uma utilização bastante eficaz de CGI, especialmente nos céus da cidade, que fazem recordar outro filme de Jeunet («Amélie»). Em «Uzumaki», o CGI é desenvolvido para criar espirais de dimensões abissais; em «Amélie» há a preocupação em “pintar” o céu de um azul vivo e colorido. Por outro, há efeitos que não funcionam muito bem em «Uzumaki», especialmente quando visionamos seres híbridos pendurados em edifícios. O saldo final da utilização de computação gráfica é francamente positivo, quando comparado com outros quejandos, nomeadamente quando falamos de filmes de grande orçamento. Será que todos filmes de FC tem de ser, como dizer?, artificiais, de «look and feel» futurístico?

Basicamente, «Uzumaki» é mais uma proposta japonesa de valor nos domínios do cinema de terror. Ao contrário de «Ring», talvez o expoente máximo desse género - sendo tratado como um case study de sucesso, foi replicado recentemente para audiências ocidentais -, o filme de Higuchinsky é muito mais um carnaval visual do que uma fita alicerçada em ambiente e atmosfera. Nesse sentido, é um filme disruptivo, com um final assombroso, de um virtuosismo quase mecânico.

3,5

Hugo Freire Gomes

Disponível em DVD de Hong Kong e Japão. Edição coreana sem legendagem em inglês.

publicado online em 19/02/02

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