Cheong Feng/The Mission
鎗火 (qiāng huŏ)
Realizado por Johnnie To Kei-fung
Hong Kong, 1999 Cor – 84 min. Anamórfico.
Com: Anthony Wong Chau-sang, Francis Ng Chun-yu, Jackie Lui Chung-yin, Roy Cheung Yiu-yeung, Lam Suet, Simon Yam Tat-wah, Wong Tin-lam, Eddy Ko Hung, Elaine Eca da Silva, Sato Keiji
drama crime acção heroic bloodshed
Capa DVD
Em «The Mission» (1999), a narrativa centra-se num conjunto de assassinos contratados para proteger um reputado membro das Tríades, um «godfather» local, alvo de uma conspiração mortal. Desse grupo díspar faz parte Curtis (Anthony Wong), o líder natural, que trabalha como cabeleireiro nas horas vagas, quando não está inscrito no Centro de Emprego como “assassino”. Os outros membros são Roy (Francis Ng), proprietário de um bar na baixa, o seu “protegido” Shin (Jackie Lui), e mais dois tipos: um proxeneta (Mike, desempenhado por Roy Cheung) e um solitário (James/ Lam Suet). As alianças entre os elementos do grupo vão se descortinando, à medida que o “trabalho” ganha contornos delicados, principalmente quando o empregador descobre que um deles anda envolvido com a sua mulher.

Apontado como um dos últimos autores remanescentes na indústria cinematográfica de Hong Kong, To Kei–Fung (conhecido no ocidente como Johnnie To ou, por vezes, Johnny To) produz e realiza filmes a um ritmo alucinante que só encontra paralelo asiático no seu “vizinho” Takashi Miike. Depois do êxodo de autores como a “referência” John Woo, Tsui Hark ou Ronnie Yu, Johnnie To tem sido referido em inúmeras publicações de qualidade (“Cahiers du Cinema, ”c´est obligé!”) como o último descendente de uma notável geração de cineastas de Hong Kong. Ao contrário dos seus colegas, Johnnie To tem-se mantido imune ao fascínio norte-americano, desenvolvendo um “corpo” cinematográfico multi-facetado e camaleónico, sem evidenciar uma temática e princípios formais claros e evidentes, característicos daquela categoria de cineastas a que os “jovens turcos” dos “Cahiers” uma vez cognominaram de “auteurs”.

Lam
A preparar o trabalho (Lam Suet).
Só após a fundação da produtora Milkyway Image, em 1996, Johnnie To passou a desenvolver projectos mais pessoais e arrojados. To, o autor tardio? Antes dessa data crucial, To era visto na indústria cinematográfica mais como um realizador competente do que propriamente idiossincrático, não obstante o extraordinário resultado obtido com o clássico instantâneo «Heroic Trio». Mesmo aí, a sua chama de autor foi, digamos, ofuscada pelas “screen” personas das 3 actrizes principais, que devoravam avidamente o écran.

No desenvolvimento dessa linha de projectos mais pessoais surge «The Mission», uma obra irónica e glacial sobre a conquista da amizade e, bem mais difícil, como mantê-la. Para To e seus personagens, um trabalho não é só mais um trabalho, há um código de ética e solidariedade subliminal, ao qual todos os elementos de um grupo juram devoção e cumprimento.

Cheung
Concentração plena (Cheung Yiu-yeung).
O objectivo de Johnnie To é filmar a coerência. Há um grupo que se move por essa qualidade, operando sobre princípios de coordenação e solidariedade. Além de uma qualidade, é um estado: To petrifica literalmente os personagens numa sequência de tiroteio num centro comercial, em que assassinos e guarda-costas defrontam-se com infindável souplesse e, claro, estilo e fleuma (afinal, estamos num filme de Hong Kong!). Estilo a rimar com quietude? Sim.

Em termos formais, a principal inovação de Johnnie To é o olhar distante, desligado como que filma as sequências de acção, sem a estilização ou a simbologia cristã de John Woo («The Killer») e Tsui Hark («Time and Tide»). Há uma sensação de beatitude e tranquilidade espirituais (será um filme zen?) a percorrer de «The Mission», em que os personagens transmitem imensa energia apenas estando inertes, como se estivéssemos num filme mudo.

Wong
Planos parados num moderno filme de acção? Segundo Stephen Teo, autor de “Hong Kong Cinema: The Extra Dimensions”, Johnnie To lida com essa contradição com a autoridade e a magnitude de um Mestre Zen, pois a quietude e o silêncio são estados que se atingem quando os códigos e processos estão absolutamente absorvidos pela “irmandade”, quando corpo e alma agem em perfeita harmonia. Estado de graça, sem dúvida.

5

Hugo Freire Gomes

Disponível em DVD de Hong Kong (Mei Ah, R0). Widescreen não anamórfico, Dolby 5.1. Fraca qualidade de imagem, com um "fantasma" sobreposto visível durante boa parte do filme. Problemas de leitura (paragem, saltos) em dois aparelhos diferentes (acabou por ser lido em ambos). Recomenda-se que aguarde por um remaster.

publicado online em 20/5/03

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