Soseiji [Gemini]
双生児
Realizado por Tsukamoto Shinya
Japão, 1999 Cor – 84 min.
Com: Motoki Masahiro,Ryo, Tsutsui Yasutaka, Fujimura Shiho, Asano Tadanobu, Ishibashi Renji, Maro Akaji, Takenaka Naoto
drama
Capa DVD
Para o realizador nipónico Tsukamoto Shinya, o confronto entre os pólos da humanidade - o animalesco e o civilizado - é um campo de batalha permanente, que acompanha indelevelmente toda a obra do autor de «Tokyo Fist». Abandonando por instantes o circuito metalizado dos «Tetsuos», Tsukamoto decidi adaptar uma história de Edogawa Ranpo, passada no final da era Meiji (1868-1912), sobre um médico Daitokuji Yukio (Motoki Masahiro) que descobre possuir um irmão gémeo, rejeitado à nascença por um ridículo defeito físico. Um é abastado, civilizado, com fortuna familiar, uma mulher devota (Rin) e uma mãe que desaprova a escolha do filho. Caso para dizer-se que nunca se pode ter tudo, “vero”? O outro é pobre, animalesco, vive num gueto e quer recuperar tudo o que ficou para trás.

«Gemini» (gémeos, em língua portuguesa) aborda habilmente temáticas como a perda da identidade, a expiação dos pecados, a rejeição e o desejo de redenção, numa versão extremada e primitiva do mito de Dr Jekyll and Mr Hyde. Tsukamoto inflige sobre os seus personagens (há um triângulo entre o irmão rico, o pobre, e o objecto de conquista, uma mulher enigmática e bela) uma tortura física e espiritual de contornos trágicos e devastadores. Nada de verdadeiramente inovador para quem conhece a obra do autor, mas no nosso olhar há uma hipótese de redenção que atravessa todo o filme, que se materializa de forma belíssima, junto à água - que é o local de outras batalhas conclusivas, entre o indivíduo, o seu destino, e as suas decisões. Os personagens de Tsukamoto andam à deriva perante a sua própria incapacidade em obterem a salvação. Aqui, há uma fonte que alimenta essa vontade – é uma mulher e essa é por si uma óptima razão para lutar, nem que seja simplesmente para se manter vivo.

Depois da odisseia cyberpunk, «Gemini» representa uma fractura na obra do realizador de culto japonês, uma possibilidade para experimentar o grotesco das suas propostas sob um pano de fundo histórico e dramático, polvilhada de uma forte camuflagem carnivalesca e macabro-burlesca, numa história levemente inspirada nos contos de horror gótico do escritor norte-americano Edgar Allan Poe.

Para «Gemini», Tsukamoto Shinya teve a possibilidade de trabalhar com um orçamento mais elevado do que é habitual, visível desde as primeiras imagens do filme através de uma fiel reprodução do vestuário da época, demonstrativo do enorme cuidado e aprumo colocados e emprestados à direcção artística do filme. Nos momentos iniciais dá-nos a ideia que entrámos para ver um drama histórico, escola Merchant-Ivory, com imagens algo estáticas e formais, sem o delírio frenético de câmara à mão característico dos filmes anteriores do nipónico. Depois das primeiras impressões, vem o lento desfiar da teia da metáfora da exclusão social, a repressão e a vingança, com a marca inconfundível - seja para bem ou para mal, isto é, aprecie-se ou não o estilo - do autor de «Bullet Ballet».

Existem duas edições actualmente disponíveis em formato DVD. Há uma japonesa, suspeitamos de boa qualidade - respeita o formato original e apresenta um documentário realizado por “the one and only”, a estrela Miike Takashi. A edição a que tivemos acesso, de Hong Kong (distribuída pela Ocean Shores), só traz uma boa notícia: é barata e acessível. A transferência é rude e escasseiam extras (há só um “data center”). O disco não é anamórfico (letterbox 1.85), o som é Dolby 2.0 e as legendas (simultaneamente inglês/chinês) foram impressas na película, bem definidas mas parcialmente ilegíveis perante fundos brancos ou brilhantes. Codificado para R3.

4

Hugo Freire Gomes

publicado online em 24/3/03

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