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Em Shinjuku, a Yakuza japonesa e as Tríades chinesas defrontam-se numa guerra sem quartel, em vésperas de um acordo histórico que pode significar as tréguas definitivas entre as facções rivais. Ryuichi (Takeuchi) é um gangster movido pelo desejo de poder e a memória de uma infância marcada por fortes privações. O seu irmão mais novo, Toji, regressou recentemente de uma temporada de estudos nos Estados Unidos. Entre os dois irmãos há uma distância cultural e ética dificilmente esbatível. Entretanto, o detective Jojima (Aikawa), encarregue da investigação do gang de Ryuichi, vê-se envolvido num acordo secreto com as mafias locais a troco de uma maquia em dinheiro, necessária para pagar a operação que pode salvar a vida à sua filha menor.
Lançado originalmente para o mercado”V” japonês (semelhante ao mercado “directo para vídeo” norte-americano) e exibido discretamente nos cinemas japoneses, «DOA» é genericamente uma variação de «Heat», de Michael Mann, em que dois homens em lados opostos da lei, desenvolvem de alguma forma uma admiração pessoal pelo trabalho do outro e pelas motivações que a ambos assistem.
Se, em termos narrativos, a criatividade e a inovação deixam muito a desejar em «DOA», o que aqui é impressionante é a estética e estilo visual com que Miike Takashi trata o material. Como explica Miike, numa entrevista para a Japanese Pop Cinema, “no argumento, o início consistia de 25 cenas apresentadas em sequência cronológica, mas decidi cortar e juntá-las, pois já estava farto das introduções típicas dos filmes de entretenimento”. Se o início é, por si só, um trailer provocador de cinco minutos capaz de afugentar a audiência média levianamente influenciável, é bem capaz que passado o choque inicial de toda aquela parafernália visual de violência cartoonesca e cómica, o espectador se sinta atraído pelo diamante em bruto que se encontra latente sob todo aquele “fogo-de-artifício”. Sob toda aquela camada de artifício visual e distorção narrativa, há a preocupação de contar uma história sobre reinserção e redenção.
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O roubo e o homicídio fazem parte de um dia normal da vida de Ryuchi e do seu bando.
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«DOA» é um thriller de acção anárquico e disruptivo, maduro e inteligente, que desafia todas as regras de continuidade narrativa e plausibilidade. Essa tendência está bem presente no seu final “anime”, desafiando todas as leis da física e da lógica. Miike desampara o espectador apoiado na muleta do final “que faz sentido”, tipo “tiro aqui, tiro acolá, um morre (o “mau”), o outro vive (o “bom”) e corre ensanguentado até à sua dama para a abraçar, em câmara lenta para ter mais impacto (antes de a abraçar, pode-lhe passar uma festinha pela cara e levar também um filho adoptivo com ele).
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Jojima investiga uma execução (esq). O quartel-general de Ryuchi é um clube de "danças exóticas" (dta).
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Miike Takashi assina uma obra simultaneamente catártica e deconstrutiva, capaz de se auto-parodiar a espaços (repare-se no final “impossível”) e polvilhada de brilhantes ideias visuais. Com mais uns dias de gravação e maturação, seria concerteza uma potencial obra-prima do cineasta de «Audition». Takashi realizou posteriormente 2 sequelas de «DOA», ambas com os actores principais (Takeuchi e Aikawa) do primeiro tomo, mas supostamente sem qualquer relação umbilical com a história original.
A edição da britânica Tartan é anamórfica com imagem clara e cores saturadas, servida por uma mistura DD 2.0 que revela as suas fraquezas nas explosões e na OST “metaleira”. Como extras, inclui uma filmografia do realizador e dos protagonistas, trailers de «DOA», «Audition», «Freezer», «Nowhere to Hide» e «Battle Royale», além de uma saborosa entrevista com Takashi, legendada em inglês. Esta entrevista traz o inconveniente de não ter sido editada, uma vez que demonstra uma total falta de ritmo (as perguntas são introduzidas em ecrã negro e depois ficamos uns 30 segundos à espera da resposta do realizador). Provavelmente, uma boa ideia para alguns realizadores portugueses. Codificado R0.
Hugo Freire Gomes
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