Ye Sau Ying Ging/Beast Cops
野獸刑警 (yĕ shòu xíng jĭng)
Realizado por Gordon Chan Ka-Seung e Dante Lam Chiu-Yin
Hong Kong, 1998 Cor – 105 min.
Com: Michael Wong Man-Tak, Anthony Wong Chau-Sang, Kathy Chow Hoi-Mei, Roy Cheung Yiu-Yeung, Patrick Tam Yiu-Man, Sam Lee Chan-Sam, Arthur Wong Ngak-Tai, Stephanie Che Yuen-Yuen
géneros: drama romance thriller crime
Wong Wong Lee
Michael Wong, Anthony Wong e Sam Lee
Entre a linha cinzenta que separa o bem e o mal, dois polícias interagem numa zona com elevados índices de criminalidade. O incorruptível Cheung (Michael Wong) é transferido para uma nova esquadra para chefiar a equipa local. Tung (Anthony Wong) é um polícia “marginal”, com amigos do outro lado da lei, que se vê, subitamente, forçado a colaborar com Cheung.

A estes personagens juntam-se os interesses amorosos de ambos: Cheung tem o “azar” de apaixonar-se pela namorada abandonada do líder de um gang local (“Big Brother”) e Tung descobre o amor por uma problemática ex-prostituta. Sam Lee (descoberto por Fruit Chan em “Made in Hong Kong”) é um jovem polícia rebelde que vive no apartamento de Tung, cujos interesses variam entre os jogos de vídeo e as conquistas amorosas inconsequentes.

Cheung Wong
O "Big Brother" (Cheung) e o amigo polícia (Wong).
O enredo inscreve-se numa certa temática («filme de tríade») bastante comum na produção de Hong Kong após a explosão de «A Better Tomorrow» (1986). O principal interesse da fita é assistir à construção das personagens e ao desenvolvimento das relações entre elas. O maior mérito da dupla Dante Lam/Gordon Chan é esse mesmo, o desenvolvimento de uma clara vertente – poderemos dizê-lo? - “humanista”, que é complementada em termos visuais por uma enorme sobriedade e contenção. Mérito e estilo que permanecem até à sequência final, que destoa claramente do tom geral do filme. De repente, parece que saltámos para um filme de zombies, onde o espectador é levado a assistir a uma panóplia a de tiros e golpes de machete ou todo o tipo de objectos cortantes disponíveis. Será que ainda estamos no mesmo filme?

A violenta sequência final até é, de certa forma, desgarrada se tivermos conta o tom e as linhas gerais do filme. Nesse sentido, é relativamente incompreensível ter-se optado por um tom que privilegiava, por assim dizer, a anti-glamourização da violência e depois assistir-se àquele clímax de sangue. No entanto, talvez tenha servido para demonstrar que quando as situações são apertadas e não há outra forma de fugir ao confronto, também há medo a destilar do outro lado da barricada moral. Apesar de tudo isso, não deixa de ficar uma certa impressão de decepção depois da visualização, entrando em linha de conta com todo a bateria de “hype” que rodeou o filme.

Lee
As interpretações são notáveis, especialmente quando pensamos em Anthony Wong. O crítico especializado Bey Logan chamou-lhe o «Michael Caine asiático», devido à trajectória comum nas respectivas carreiras: ambos desempenharam um variedade imensa de papéis, mas poucos deles fizeram jus ao talento intrínseco destes actores. Anthony Wong, aqui a recuperar de uma doença que o deixou francamente debilitado, é um actor menosprezado e esquecido no Ocidente, onde é fundamentalmente recordado pela sua prestação em «Hard Boiled» (1992), de John Woo. A projecção europeia dada a «The Mission» (1999), de Johnnie To (com epicentro nos famosos «Cahiers du Cinema»), talvez tenha vindo a mudar radicalmente esse cenário.

2

Hugo Freire Gomes

Vd. texto de Luis Canau

Disponível em DVDs de Hong Kong (Media Asia R0), letterbox, e outro de melhor qualidade e com alguns extras, do Reino Unido (HKL R2), widescreen anamórfico. Ambos com pista de som Dolby 5.1

publicado on-line em 22/12/02

cinedie asia copyright 2002 Luis Canau.